Panela de cerâmica faz mal ou é segura? A resposta honesta depende do tipo de cerâmica e inclui um “ainda não se sabe”. Não há estudo que mostre dano à saúde pelo uso comum dessas panelas; por outro lado, também não há estudo que prove que elas são totalmente inertes.
A seguir, separamos o que os estudos e os órgãos de saúde já mostram, o que continua em aberto e como usar a panela com mais segurança.
Resumo em 30 segundos
- O revestimento cerâmico é feito sem PFAS, mas a composição completa costuma ser segredo de fabricante.
- Além disso, o revestimento enfrenta calor e atrito todos os dias, e um estudo encontrou partículas de titânio saindo dele, mais ainda quando riscado.
- Se o interior é colorido, também há pigmento nessa camada, e a fórmula dele é segredo do fabricante.
- Na cerâmica pura, o cuidado é com o esmalte: peças sem procedência podem ter chumbo, segundo a FDA.
- Por isso, prefira marcas conhecidas e troque a panela quando o revestimento riscar ou lascar.
Primeiro: de qual cerâmica estamos falando?
O nome “panela de cerâmica” serve para 2 produtos diferentes. A cerâmica pura é a panela feita inteira de cerâmica, como as de barro ou as refratárias. Já o revestimento cerâmico é uma camada fina sobre uma panela, geralmente de alumínio, e é a maioria das panelas coloridas do mercado.
Os riscos de cada uma são diferentes; por isso, tratamos uma de cada vez. Se quiser entender melhor a diferença, explicamos em panela de cerâmica é boa.
Panela de cerâmica faz mal? O que se sabe do revestimento
Ele é feito sem PFAS
O revestimento cerâmico usa uma camada à base de sílica, aplicada por um processo chamado sol-gel, sem PFAS, segundo o verbete sobre superfícies antiaderentes. Ou seja, ele não tem a família de substâncias do antiaderente tradicional que entrou na mira dos reguladores.
Além disso, ele começa a se degradar por volta de 370 °C, enquanto o PTFE, o antiaderente comum, começa em torno de 260 °C. Assim, ele tolera um pouco mais de calor antes de estragar.
A fórmula completa costuma ser segredo
Aqui começa o “não se sabe”. Uma reportagem do The Guardian de 2025 mostrou que, nos Estados Unidos, não existe definição legal para “atóxico” nem para “cerâmica” em panela. Além disso, as fórmulas são protegidas como segredo comercial, então o consumidor não sabe tudo o que está na camada.
Segundo a mesma reportagem, testes independentes encontraram titânio e, em um caso, chumbo em panelas vendidas como cerâmicas. Por isso, o estado de Washington, nos Estados Unidos, passou a exigir que os fabricantes informem os ingredientes desses revestimentos.
O estudo das partículas de titânio
Em um estudo publicado em 2016 na Food Additives & Contaminants, pesquisadores da Eslovênia analisaram frigideiras com revestimento “quase cerâmico”, feito de silicone com dióxido de titânio e quartzo. Nos testes com água e com líquidos ácidos, aquecidos a 100 °C, o revestimento liberou titânio, inclusive em partículas de tamanho nano.
Os autores também viram que arranhões e desgaste aumentam essa liberação. Porém, o estudo mediu quanto sai da panela; ele não avaliou efeitos na saúde de quem come.
O que o calor e a espátula fazem com o revestimento
Pense no que a panela enfrenta no dia a dia. Ela aquece e esfria várias vezes, e o metal do corpo dilata num ritmo diferente da camada de cima. Além disso, a espátula raspa o fundo e a colher bate na borda, justamente enquanto a camada está quente.
O efeito aparece com o tempo: o antiaderente da cerâmica costuma durar menos que o de outras panelas. Então, fica a pergunta: se a camada perde desempenho, para onde vai o que se desgastou?
O estudo esloveno ajuda a responder: ele encontrou liberação de titânio nos testes e viu que o desgaste aumenta essa saída. Por outro lado, ele não avaliou efeito na saúde; mostrou apenas que a liberação existe naquelas condições.
Revestimento colorido por dentro: tem pigmento
Muitas panelas de cerâmica têm o interior verde, azul, bege ou rosa. Se tem cor, tem pigmento na camada, e a composição desse pigmento entra no mesmo segredo de fabricante que o resto da fórmula.
Por isso, a mesma pergunta vale para a cor. Se a camada se desgasta com o uso, o pigmento que está nela também faz parte desse desgaste. E, caso saia algo, você dificilmente perceberia, porque ficaria diluído na comida, no molho e nos temperos. Aliás, o dióxido de titânio que o estudo esloveno encontrou é justamente o pigmento branco mais usado em tintas e revestimentos.
Não encontramos estudo que meça quanto pigmento podem sair dessas panelas, nem que mostre dano à saúde. Ainda assim, na dúvida, preferimos inox cirúrgico ou ferro fundido para o uso pesado e, entre as revestidas, marcas que informem a composição.
O que ainda não se sabe
- Se as quantidades que saem da panela fazem mal no uso diário.
- Também não se sabe o efeito da mistura de substâncias de cada fórmula.
- Além disso, falta saber quanto sai depois de meses de desgaste, porque poucos testes acompanham a panela ao longo do tempo.
- Por fim, quanto pigmento sai das panelas coloridas por dentro.
Cerâmica pura: o cuidado é com o esmalte
Na panela feita inteira de cerâmica, a atenção vai para o esmalte e a decoração. Segundo a FDA, a agência de alimentos dos Estados Unidos, o chumbo pode migrar do esmalte para a comida quando a peça não é queimada na temperatura e no tempo certos.
A agência lista as peças que merecem mais atenção: feitas à mão, antigas, lascadas ou muito gastas, compradas de vendedores desconhecidos e com decoração em laranja, vermelho ou amarelo forte. Além disso, ela avisa que lavar ou ferver não remove o chumbo.
No Brasil, a Portaria SVS/MS nº 27/1996 fixa limites de migração de chumbo e cádmio para cerâmica e vidro em contato com alimentos. Em 2014, pesquisadores do ITAL, de Campinas, testaram 26 canecas de cerâmica vendidas em São Paulo e Campinas, nacionais e importadas, e todas ficaram abaixo desses limites.
Por outro lado, um estudo do Inmetro de 2011 concluiu que a portaria precisa de revisão e que faltam dados de fiscalização sobre louças. Ou seja, a regra existe, mas o controle depende muito da procedência da peça.
Por isso, para cozinhar, prefira cerâmica de fabricante conhecido e com indicação clara de uso para alimentos. Já peças decorativas ou de procedência duvidosa ficam melhor como enfeite.
E as outras panelas? Nenhuma é “zero”
Vale colocar a cerâmica em perspectiva. O inox, por exemplo, pode liberar um pouco de níquel e cromo na comida, principalmente quando a panela é nova, segundo um estudo da Oregon State University de 2013. Já o antiaderente comum se degrada acima de cerca de 260 °C.
Ou seja, a pergunta útil não é qual material libera “nada”, e sim qual o mais seguro, como usar cada um do jeito certo e por quanto tempo.
Como usar a panela de cerâmica com mais segurança
- Troque a panela quando o revestimento riscar, descascar ou lascar.
- Além disso, use fogo baixo ou médio.
- Prefira utensílios de silicone ou de madeira; assim, você reduz o atrito que arranca o revestimento.
- Também evite deixar molhos ácidos guardados na panela por muito tempo, já que o estudo mostrou mais liberação com líquidos ácidos.
- Por fim, compre de marcas conhecidas, com indicação de uso para alimentos.
Evite
- Cerâmica artesanal sem procedência para cozinhar ou guardar comida.
- Também evite continuar usando panela com revestimento riscado ou lascado.
- Além disso, desconfie de “100% atóxico” na embalagem: nos Estados Unidos, por exemplo, o termo não tem definição legal.
- Por fim, evite espátula de metal e fogo alto com a panela vazia, porque aceleram o desgaste da camada.
Nossas indicações
Se você quer uma panela de uso diário com material conhecido e sem revestimento para se desgastar, veja nossa lista de melhores jogos de panelas para indução, que também funcionam no gás. Por outro lado, se o interesse é a cerâmica, o guia panela de cerâmica é boa mostra quando ela vale a pena.
Perguntas frequentes
Panela de cerâmica solta substância tóxica?
Um estudo encontrou liberação de partículas de titânio em revestimentos “quase cerâmicos”, maior com arranhões. No entanto, não há estudo mostrando dano à saúde pelo uso comum; por isso, a recomendação é trocar a panela quando o revestimento se desgastar.
Revestimento cerâmico tem PFAS ou Teflon?
Não. O revestimento cerâmico é feito por processo sol-gel, sem PFAS. Mesmo assim, a fórmula completa costuma ser segredo de fabricante.
Panela de barro é segura?
Depende do esmalte. Peças de fabricante conhecido e indicadas para alimentos são a escolha mais segura; já peças artesanais sem procedência podem ter chumbo no esmalte, segundo a FDA.
Posso usar panela de cerâmica riscada?
Não é o ideal. O estudo esloveno mostrou que arranhões aumentam a liberação de partículas do revestimento; então, quando ele riscar ou lascar, é hora de trocar.
Panela de cerâmica colorida por dentro é pior?
Não há estudo que compare. Porém, se tem cor, tem pigmento na camada, e a fórmula dele não é divulgada. Assim, a pergunta que fica é o que acontece com esse pigmento quando o revestimento se desgasta. Na dúvida, prefira marcas que informem a composição.
O que quer dizer “cerâmica atóxica” na embalagem?
Na prática, pouco. Nos Estados Unidos, por exemplo, o termo não tem definição legal; por isso, vale mais olhar a marca, a indicação de uso para alimentos e o estado do revestimento.
Veredito
A panela de cerâmica não é um perigo conhecido, mas também não tem a segurança comprovada que muitas embalagens sugerem. Para usar com tranquilidade, escolha marcas conhecidas, cuide do revestimento e troque a panela quando ela riscar.
Fontes consultadas
Nacionais
- Ministério da Saúde, Portaria SVS/MS nº 27/1996: embalagens e equipamentos de vidro e cerâmica em contato com alimentos.
- Inmetro, 2011: estudo sobre o índice máximo de substâncias que migram de louças para alimentos.
- Oliveira, Kiyataka e Jaime, ITAL/CETEA, 2014: avaliação do teor de metais em utensílios cerâmicos de uso doméstico.
Internacionais
- Golja et al., 2016, Food Additives & Contaminants: revestimentos antiaderentes com nanopartículas de dióxido de titânio e sua liberação nos alimentos.
- FDA, agência de alimentos dos Estados Unidos: perguntas e respostas sobre cerâmica tradicional esmaltada com chumbo.
- The Guardian, 2025: reportagem sobre as alegações de “cerâmica atóxica” em panelas.
- Kamerud et al., 2013, Oregon State University: liberação de níquel e cromo por panelas de inox.
- Wikipedia, verbete Non-stick surface: revestimentos antiaderentes cerâmicos e PTFE.
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica. Em caso de dúvida sobre exposição a chumbo, principalmente em crianças, procure um profissional de saúde.



